11 janeiro 2010

escola pública: os pontos nos ii

sobre uma frase da Lídia Jorge, num post aí abaixo:
« a escola pública portuguesa precisa de proceder a uma revolução nos métodos de trabalho.»

Pois.. não sei se a 'revolução' de que a escola pública precisa' é mesmo ao nível dos métodos de trabalho. Não me parece.

Sempre que há mudança de partido no governo, a escola, o sistema educativo, sofrem revoluções / involuções - precisamente e apenas, a nível dos métodos / metodologias de trabalho e de ensino.

Sempre os vários governantes partem de um mesmo pressuposto/ falácia : a de que os responsáveis pelo insucesso do sistema são os professores, dos quais invariavelmente se espera que se adaptem e se renovem ao ritmo dos apetites de quem decide os destinos da educação.

Nos meus mais de 30 anos de serviço já experimentei ou aprendi sobre métodos e teorias das mais variadas, algumas perfeitamente mirabolantes: a sugestopedia, aquela com que me brindaram no estágio, e que era, ao tempo, o último grito das pedagogias em ciências da educação made in Boston, agora a novel e omnipresente revolução tecnológica ..

A tudo os professores vão dando resposta, acções de formação sobre acções de formação, trabalho de casa sistemático, malabarismos/ contorcionismos indiciadores de uma invulgar capacidade de adaptação/renovação que qualquer ME sério e atento aplaudiria de pé.

No entanto, e apesar - ou por causa de - tanta experimentação, melhorias palpáveis, realistas, no que concerne às aprendizagens dos alunos, honestamente .. nenhumas. Corolário lógico: a culpa, ao contrário do que pretendem os vários podres poderes, alguns  iluminados personagens da nossa praça, não é dos professores.

Alteram-se os métodos de trabalho, as metodologias de ensino, a prática pedagógica. Um vector, no entanto, permanece:  a 'macro-visão' do sistema educativo, mais as suas vertentes operacionais: os curricula e o sistema de transição dos alunos durante todo o período da  escolaridade obrigatória, minado de disposições facilitistas apoiadas por uma rede burocrática 'infurável'.

Vejamos algumas aberrações, no que respeita ao sistema de transição:
  • os alunos do ensino básico (2.º e 3º ciclos, do 5º ao 9.º) podem transitar, ano após ano, com avaliação negativa a 3 disciplinas, que, previsivelmente, até serão sempre as mesmas..
  • duas dessas disciplinas podem ser, por exemplo, a matemática e o inglês - ano após ano, até concluírem o 9.º
Que ilações retiraria qualquer pessoa sensata destas circunstâncias? Que consequências advêm deste sistema de progressão? Basicamente, duas: iliteracia funcional e interiorização do facilitismo, por parte, quer dos próprios alunos, quer dos seus encarregados de educação, ambas, por seu lado, conduzindo a outras situações perversas:
  • o elevadíssimo insucesso no 10.º ano /abandono escolar no ensino secundário, porque regido por diferentes regras; 
  • o desinteresse e a indisciplina - em pelo menos 3 disciplinas - factores predominantemente inibidores das aprendizagens, e que grassam nos ciclos de escolaridade obrigatória. Estendê-la ao 12.º ano será um erro crasso enquanto não forem corrigidas as disposições que agora vigoram.

E vem-me à memória um inquérito do jornal Público, em que se inquiriam 'personalidades' sobre as causas do insucesso escolar (efectivo) em Portugal.
A pergunta era: «Acha que a culpa do insucesso é dos professores?»
A resposta de uma das inquiridas, Inês Pedrosa, escritora e directora da Casa-Museu Fernando Pessoa, mais ou menos isto :
« É óbvio que a culpa é dos professores! Os alunos não hão-de ser todos burros!»

pois..
da boçalidade da resposta não vou nem falar..
Mas tem razão a senhora: os alunos, na sua grande maioria, de 'burros' não têm nada. Nem, de resto, os alunos que reprovam são os que têm 'dificuldades de aprendizagem'.
Os alunos que reprovam são aqueles que não querem saber da escola para nada - secundados e incentivados nesta perspectiva pelos seus EE.
Os alunos que reprovam são os que se portam muito mal e fazem da sala de aula uma extensão do recreio, prejudicando-se a si e aos colegas.
Os alunos que reprovam são aqueles cujos pais só aparecem na escola para insultarem os professores, carrascos implicantes que traumatizam os seus impolutos 'anjos'.

Os alunos que reprovam, em última análise, são os que, inteligentemente, intuíram os valores de facilitismo e auto-desresponsabilização subjacentes ao sistema educativo - desenhado e mantido ao longo das últimas décadas - pelo ministério da educação.


1 comentário:

ana disse...

Brindo primeiro ao discurso.
Agora sim, poderei partilhar que muitas das afirmações já citadas, fazem todo o sentido.
Os alunos têm todos capacidades individuais e não são "burros". Nem todos terão formação para serem académicos,mas sim técnicos.
E é preciso não esquecer que um bom técnico faz muita falta no nosso país .
Quanto à culpa ...
Os professores vão fazendo o seu melhor ,adaptando-se às reformas consoante a sua elasticidade.Lá vão motivando, por vezes pouco motivados .
Mas não tenho dúvidas, as boas turmas ( já raras) brilham na mão de qualquer professor, enquanto que as outras ( mais comuns)fazem sombra no currículo do professor.

Ana