19 dezembro 2009

sobre a estupidez - as escolas e os fumadores

Nas escolas, tudo começou a deteriorar-se quando, do seu seio, se baniram os fumadores, mais concretamente os professores fumadores. Verdade!!Não acreditam? Pois passo a explicar:

Lá na escola onde trabalho tinha-se gasto dinheiro, feito obras: na sala de professores (onde se passam /passavam!.. não só os intervalos como as inúmeras horas dedicadas ao chamado 'trabalho de escola') pôs-se uma divisória de vidro, separando - sem ostracizar (continuávamos a ver-nos uns aos outros) - os poluentes fumadores do pessoal sem públicos vícios. O espaço que então se criou tinha uma porta de mola, exaustor de fumos, duas amplas janelas. Estava-se lá bem. Nós, os viciados, trabalhávamos e fumávamos sem incomodar ninguém. Nos intervalos, a sala de fumadores era o espaço mais animado da escola: enchia-se de sim- e não-fumadores. Não sei porquê, temos fama/proveito de mais animados, interessantes.. que querem, facto generalizado e quase indesmentível :-) ..  Naquele espaço a abarrotar púnhamos as notícias em dia, tratávamos de assuntos da escola e dos nossos alunos, encontrávamos os directores de turma e quem mais precisássemos, discutíamos políticas e politiquices, organizávamos eventos, resistências. O quadro branco da parede de entrada sempre colorido de slogans poemas notícias bocas. Ríamo-nos muito, também. Do lado de lá do vidro, o protegido cinzentismo dos fundamentalistas saudáveis, o bar ao fundo, que invadíamos a espaços, demandando salgados e muitos cafés.


E de repente a ASAE e a proibição de se fumar no recinto escolar, dentro ou fora de paredes. Os alunos que não podem ser corrompidos pelo mau exemplo dos seus professores fumadores. A lei que , malgré nous, nos protege das nossas próprias fraquezas, zela pela nossa saúde. O pessoal que vai - todo - deixar de ser uma ameaça à saúde pública e aos bons costumes. Professor não fuma, ponto. Professor é role model, impoluto e perfeito. Queira ou não queira! A virginal existência dos nossos jovens enfim liberta de maus exemplos. Indigência poluente, focos inspiradores de banditismo, na escola, plus jamais! Bendita ASAE, e bendito o governo que a pariu, mais às suas imprescindíveis leis. Haja moralidade!

Pois.
Não..
Não completamente, apesar de muitos terem claudicado, deixado de fumar, aceite o seu novo, recomendável estado. Fixe, parabéns! Fico até contente com a vossa conversão.. Pena que comigo a coisa tenha funcionado ao contrário: tratam-me como se fosse criminosa? mas que é esta m*rda, esta perseguição aos fumadores - só? pois agora é que eu não deixo mesmo de fumar!, decidi - eu e outros como eu, 'ovelhas ranhosas' persistindo na sua ranhosice..

Então.. na minha escolinha cheia de espaços verdes onde continua a haver uma sala -separada por um vidro e uma porta de mola, com exaustor de fumos e duas amplas janelas - agora fuma-se ao portão, do lado de fora do recinto, ao sol à chuva à canícula ao vento ao frio.

Cá fora, partilhando fumos suores arrepios, professores e alunos do secundário em insaudável convivência de parabenos e dióxidos múltiplos.
Do lado de dentro os alunos mais novos, observando-nos, aparentemente desejando juntar-se ao grupo de  dialogantes proscritos.
O privado vício tornado do mais público, para alunos, mães, pais, fornecedores, passantes,  automobilistas,   passageiros vários, o mundo todo.

A antiga sala de fumo, durante uns tempos praticamente 'desabitada', agora convertida em sala de trabalho que muito poucos usam, as quatro ocupadíssimas mesas redondas de antes reduzidas a uma. Muitos sofás vazios, a parede do fundo enfeitada com 3 computadores que alguém liga de vez em quando. O tal quadro branco, agora sempre branco. Do lado de lá do vidro, o bar que perdeu clientes para os cafés das redondezas, o cinzentismo carregado de ruído, insuportável no intervalo grande.

Quase não vou à sala de professores, dos que chegaram de novo só conheço os fumadores ou aqueles com quem tenho turmas em comum. Deixámos de nos encontrar, de trabalhar nas horas vazias, de falar das coisas da escola, dos nossos alunos. As políticas e politiquices discutem-se ao portão, meia dúzia de resistentes tolhidos de frio. Que se constipam e adoecem e depois faltam. Que fumam duas vezes mais, aproveitando cada segundo dos intervalos. Que às vezes ainda riem.

9 comentários:

André Gonçalves disse...

Eu não fumo nem nunca fumei, faz mal e não suporto o fumo e o cheiro que deixa na roupa.
Sim, deve haver uma lei do tabaco para proteger aqueles que não querem levar com fumo quando estão num restaurante a comer ou para que não fumem nos centros comerciais. A ideia original da lei é boa, a aplicação nem tanto.
Neste caso, com a criação de uma sala para fumadores dentro da sala de professores é totalmente desnecessário obrigar os "agarradinhos" para o portão ou para os cafés. Acho engraçada a desculpa de que esta regra serve para não passar uma má imagem aos alunos. Quer queiramos ou não os alunos fumam muito mais que os professores, e não é só tabaco...

Margarida Alegria disse...

Agora o professor passou a ter de ser "perfeito", seja lá o que isso for, talvez até numa pespectiva nazi de "saudável" raça ariana.
E dixou de ter direitos. Os direitos Humanos e de cidadania não incluem o professor.
E ,sim, ver professores e alunos ao frio à entrada da escola, a encher o passeio de "beatas" é muito mais triste e deseducativo.
Fala uma não fumadora. Uma jamais fumadora.

Anónimo disse...

os direitos humanos não incluem os fumadores, olhados de lado e tratados como se fossem a escumalha da sociedade!

AL disse...

motes para comentários;-)

- fumadores e aeroportos
- tabaco vs álcool

Carlos Milho disse...

Pois é, a tal sal de fumo era realmente mais animada, mais "saudável" em termos de convivência e boa disposição. No entanto, e porque sempre me insurgi contra o facto de ser obrigado a ser fumador passivo, e de tantas e tantas vezes, antes da sala de fumo, ter sido "obrigado" a tomar o meu pequeno-almoço na rua para não me saber a fumo, fique satisfeito com a chegada da lei. É certo que em consequência desta se criaram algumas situações caricatas, como o facto de termos os fumadores ao frio e à chuva quando querem fumar o seu cigarro. Mas da mesma forma que os restaurantes, centros comerciais e outros espaços públicos permitem aos não fumadores respirarem um ar mais limpo, ninguém obriga os fumadores a estar ao frio e à chuva. O vício, seja ele qual for, nunca é imposto, mas sempre uma escolha. Claro que depende da força de vontade ou, no caso de alguns, da teimosia ou da necessidade de marcar determinada posição ;)
Mas com mais ou menos chuva, mais ou menos frio, mais ou menos teimosia, lá vão resistindo e mantendo o seu vício, aceitando a sua condição de outsiders, agora literalmente :) Mas nunca os considerei, nem considero, ovelhas ronhosas, com "o", como deve ser escrito, já que ranhosas devem estar, pelo frio que apanham :D
BJS!

AL disse...

tu.. ñ deixas passar uma, pá!! :-) por acaso até sabia que se deve dizer 'ronhosas', mas que queres? sp disse ranhosas e gosto..associo a palavra àqueles miúdos de outros tempos, criados na rua, cara de 'antes partir q vergar', o ranho escorrendo e quem ñ gosta q não olhe, faz parte do 'look' e do feitio..
ronha porquê, afinal? fazer ronha ñ é ñ fazer nada, fingir q sim? pois então!, não tem nada a ver com o perfil..

e.. ao resto respondo dp!;-)

Anónimo disse...

Apesar de não ser fumador, era dos que ia para a sala dos fumadores, pois era onde se conversava...
Como não gosto de fundamentalismos nem de proibições hipócritas de quem fuma nos aviões, penso que é uma estupidez obrigar as pessoas a fumar ao portão para dar o exemplo aos alunos... Quem criou essa lei foram as empresas de tabaco para venderem ainda mais!

AL disse...

meninos e menina, obrigada pelos vossos comentários.

a questão q queria levantar era:

- não se devia acabar com a abjecta proibição de fumar dentro do recinto escolar, havendo condições - como a tal sala reservada a fumadores?
- não acham que é desumano pôr os fumadores na rua, sujeitos às intempéries? ou os inalienáveis direitos que devem assistir a qq pessoa pressupõem esta excepção? e não, Milho, ñ se trata de escolher fumar ou não fumar. Trata-se, sim, da condição humana de um fumador - que, sendo-o, não deve ser tratado como um marginal!

mais: toda a gente sabe (..;-) que a proibição de fumar nos aviões não foi uma opção sanitária, mas economicista!! agora não se renova o ar, poupa-se imenso combustível, mas os vírus, as bactérias e outros micro-atentados à saúde dos passageiros estão lá, e germinam!!

mais ainda:
um fumador (a sério, daqueles bem viciados) é um fumador, ponto. Não deixa de o ser por via de leis anti-tabágicas. Leis que, por os 'excomungarem', são quebradas à mínima oportunidade - e a necessidade aguça o engenho, como terão visto no videoclip aqui posto.

resumindo: proteger os não fumadores? claro, 100% de acordo, mas criar espaços para os que, coitados, não conseguem largar o vício..
e ainda:
incomoda/ prejudica mais um fumador ou um bêbado? - por que carga de água se continua a fazer publicidade às bebidas alcoólicas? publicidade, cúmulo dos cúmulos, dirigida sobretudo aos jovens?

pois é.. moralidades, só qdo são para todos

Anónimo disse...

http://www.publico.es/televisionygente/315927/nino/fuma/40/cigarrillos/pitillos/diarios/2/dos/anos/indonesia/the/sun