29 novembro 2009

do ser professor

escrevi isto há anos, 'retoquei-o' no início do tenebroso primado de MLR. o texto foi-me sendo recorrentemente reenviado (ainda que um tanto adulterado) em animações de power point, por professores, alunos..
muita gente parece rever-se nele, reconhecer-lhe mérito e verdade. e no entanto, ainda há quem não veja, quem não queira ver..
pois repito-o pela enésima vez. repeti-lo-ei até que a 'mão' me doa:


Aspectos que toda a gente parece ignorar
sobre a profissão de Professor
e que será bom esclarecer:

  1. Esta é uma profissão em que a imensa maioria dos seus agentes trabalha (em casa e de graça, entenda-se) aos sábados, domingos, feriados, madrugada adentro e muitas vezes, até nas férias! Férias, sim, e sem eufemismos, que bem precisamos de pausas ao longo do ano para irmos repondo forças e coragens. De resto, é o que acontece nos outros países por essa Europa fora, às vezes com muito mais dias de folga do que nós: 2 semanas para as vindimas em Setembro/ Outubro, mais duas para a neve em Novembro, 3 no Natal e mais 3 na Páscoa, 1 ou 2 meses no verão..
  2. É a única profissão em que se tem falta por chegar cinco minutos atrasado (5 minutos que equivalem a um tempo, de 45 ou 90 minutos!)
  3. É uma profissão que exclui devaneios do tipo “hoje preciso de sair meia hora mais cedo”, ou o corriqueiro “volto já” justificando a porta fechada em horas de expediente.
  4. É uma profissão que não admite faltas de vontade e motivação ou quaisquer das 'ronhas' que grassarão, por exemplo, no ME (quem duvida?) ou na transparente AR.
  5. É uma profissão de enorme desgaste. Ainda há bem pouco tempo foi divulgado um estudo que nos colocava na 2ª posição, a seguir aos mineiros, mas isto, está bom de ver, não convém a ninguém lembrar…
  6. É uma profissão que há muito deixou de ser acarinhada ou considerada, humana e socialmente. Pelo contrário, todos os dias somos agredidos – na nossa dignidade ou fisicamente (e as cordas vocais não são um apêndice despiciendo…) , enxovalhados na praça pública, atacados e desvalorizados, na nossa pessoa e no nosso trabalho, em todas as frentes, nomeadamente pelo 'patrão' que, passe a metáfora económica tão ao gosto dos tempos que correm…, ao espezinhar sistematicamente os seus 'empregados' perante o 'cliente', mais não faz do que inviabilizar a 'venda do produto'!
  7. É uma profissão em que se tem de estar permanentemente a 100%, que não se compadece com noites mal dormidas, indisposições várias (físicas e psíquicas) ou problemas pessoais …
  8. É uma profissão em que, de 45 em 45, ou de 90 em 90 minutos, se tem de repetir o processo, exigente e desgastante, quer de chegar a horas, quer de "conquistar" , várias vezes ao longo de um mesmo dia de trabalho, um novo grupo de 20 a 30 alunos (e todos ao mesmo tempo, não se confunda uma aula com uma consulta individual ou a gestão familiar de 1, 2, ‘n’ filhos...)
  9. É uma profissão em que é preciso ter sempre a energia suficiente (às vezes sobre-humana) para, em cada turma, manter a disciplina e o interesse, gerir conflitos, cumprir programas, zelar para que haja material de trabalho, atenção, concentração, motivação e produção. Batemos aos pontos as competências exigidas a qualquer dos nossos milionários bancários, dos inefáveis empresários, dos intocáveis ministros! Ao contrário deles (da discrepância salarial e demais benesses não preciso nem falar) e como se não bastasse tudo o que nos é exigido …
  10. ainda somos avaliados (implícita ou explicitamente), não pelo nosso próprio desempenho, mas pelos sucessos e insucessos, os apetites e os caprichos dos nossos alunos e respectivas famílias, mais a conjuntura política, económica e social do nosso país!
Assim, é bom que a 'cara opinião pública' comece a perceber por que é que os professores "faltam tanto" (!)– leia-se ‘faltavam’ (*):
Para além do facto de, nas suas "imensas" faltas, serem contabilizadas também situações em que, de facto, estão a trabalhar :
  • no acompanhamento de alunos em visitas de estudo
  • em acções, seminários, reuniões, para as quais até podem ter sido oficialmente convocados
  • para ficarem a elaborar ou corrigir testes e afins , que não é suficiente o tempo agora atribuído a essas tarefas (e a idade não perdoa, muito menos nesta profissão..) 
  • ou, como vem sucedendo ultimamente, a fazerem em casa, que é o sítio que lhes oferece condições, horas e horas não contabilizadas (muito menos pagas..) do obrigatório “trabalho de escola”….

Para além disto, e não é pouco, há pelo menos, como acima se terá visto, toda uma lista de 10 boas e justificadas razões para que o façam.
Correcção :
as nossas faltas nem sequer são faltas! São dias descontados ao período de férias!

(*) agora praticamente não faltamos: 5 dias/ano de artigo 102 contra os anteriores 12 (que o resto da Função Pública continua a ter!) ou os 24 dias (2 por mês) do antigo artigo 4.º, alguém se lembra? Não faltamos, o que não se traduz necessariamente em maior produtividade, muito menos em mais qualidade:
  • Agora vamos para as aulas, doentes, indispostos, mal dormidos, encharcados em calmantes (sim, em que acham que resulta o stress em que nos têm mantido nos últimos 4 anos?!).
  • Os testes que dantes ficávamos a corrigir (abdicando de dias de férias) demoram agora semanas e semanas a serem entregues aos alunos. Passamos o dia na escola: para além das aulas, horas e horas a 'fingir que sim'.. Chegamos a casa exaustos.
  • Nem temos, sequer, hipótese de ir ao médico, que nos obrigam a repor as aulas (escapamos apenas se estivermos presos, sabiam?) Mais: o nosso médico, que nos conhece há 20 anos, não pode atestar a nossa doença, se não for convencionado!! - aberrante, surrealista..

E … também há quem, não dando uma única falta, tenha (nas aulas, em casa..) uma ‘rica vida’, acreditem!


ver, aqui, surrealismos sb as faltas dos professores

e aqui, uma entrevista bem esclarecedora a Santana Castilho, sobre responsabilidades e culpas..

2 comentários:

TM disse...

É engraçado como estas coisas acontecem... Não o texto circula entre alunos e professores como uma vez o recebi de uma pessoa que não tem nada a ver com o mundo escolar... :D Beijinhos!

Luís Prista disse...

Já conhecia o texto (e até o sabia por ti subscrito) e com ele concordava por completo. Também depois o vi a circular, talvez já anónimo, e nem por isso deixei de concordar com o que aí se dizia. Visto agora de novo, continuo a achar que tudo nele é acertado e que era preciso que mais pessoas tivessem a mesma atitude de não recear exprimir o que obviamente sentem (se forem mesmo professores).