24 outubro 2009

dos professores, das férias e das pausas

Vem este post a propósito de uma situação agora vivida na minha escola: para a realização dos Conselhos de Turma deste primeiro período (e para os quais, alegadamente, 3 dias + a tarde de 6ª não chegam), pôs-se em alternativa irmos trabalhar num sábado ou no dia 28 de Dezembro.
- sem comentários!


Não vou pôr-me aqui a repetir o que já escrevi milhentas vezes (um ex. aqui) sobre a especificidade desta profissão, o desgaste psicológico dela decorrente. Quero, isso sim, que, por uma vez e definitivamente, se ponham os pontos nos ii: os dias sem aulas no Natal, Carnaval e Páscoa TÊM de ser FÉRIAS para alunos e professores, que delas andamos bem precisados, uns e outros!

Também sei bem o que a lei diz: "férias, não, interrupções lectivas!, durante as quais os professores podem ser chamados a trabalhar na escola". Posso até entender a má vontade (maldadezinha) da tutela, sempre tão carente de aprovação da opinião pública geradora de votos..

O que não compreendo nem aceito, o que contesto e verdadeiramente me incomoda, é a passividade, a aceitação bovina do status quo, por parte, quer de professores, quer de sindicatos. "é a lei, tem de se cumprir." ??
  • Que tal colocar - já! - o assunto na mesa de negociações com a nova ME?

  • Alegar práticas vigentes noutros países da UE ? (muito mais prósperos, com melhores resultados escolares) e onde, aos professores, para além das 2 ou 3 semanas no Natal e na Páscoa, do um ou dois meses no final do ano, são concedidos períodos vários de férias efectivas - uma ou duas semanas de cada vez : as férias das vindimas, as férias da neve, as férias do Pentecostes.. E sei bem do que estou a falar, tenho família e amigos professores, na Bélgica e na Alemanha, no ano passado tive, nas aulas, a visita (aproveitando 2 semanas de férias a meio do 2º período) de uma ex-aluna que agora estuda na Suíça (ler aqui - recomendado!)

Já ninguém se convence (para além, é claro, da financiada CONFAP e daquele tipo de progenitores que não conseguem aguentar a convivência com os filhos) - que mais tempo de aulas, mais horas de permanência na escola (ler aqui artigo indispensável de Joaquim Azevedo) sejam benéficas para alguém, alunos ou professores, tragam saúde de qualquer tipo, felicidade nenhuma, melhorem as aprendizagens, se traduzam em (efectivos) melhores resultados escolares. (outro artigo elucidativo, aqui)

Muito pelo contrário: pausas (pausas-pausas, pausas-férias) a meio e no fim dos 3 períodos lectivos repõem energias e paciências, permitem organizar o trabalho. Lembro-me bem de ser este um dos aspectos positivos referidos pelos alunos do secundário quando, em tempos, (era Cavaco Silva 1º ministro), tínhamos direito a uma semana de férias em Novembro. Por que razão se acabou com ela, pergunto-me? Por que é que ninguém reagiu?

São essas pausas-férias-para-todos (em Bruxelas as escolas fecham) que tornam possível aguentar, com um nível de sanidade - física, mental - aceitável , o dia-a-dia ultra-stressante de professores e alunos, sobrecarregado de trabalho, de agressões várias: o ruído constante a que estamos sujeitos, só por si, seria argumento mais que suficiente para justificar estas paragens - que, diga-se de passagem, a meio do 1º período (agora o mais longo dos 3) seria mais que sensato repor.


Por isso, meus amigos, vamos lá pôr os pontos nos ii, tratar de exigir os nossos direitos: férias são férias - bem merecidas e bem necessárias, sobretudo para os professores!

o quadro acima é de Picasso - quem melhor, para ilustrar este 'nonsense'?..

9 comentários:

Teresa disse...

Agora, completamente de acordo! Beijos

Em@ disse...

Há muito tempo que deixaram de ser férias...
Quanto ao resto, totalmente de acordo.

alexandra_c disse...

deixo a minha rica experiência aqui de bruxelas: a próxima semana é de férias, férias mesmo, inquestionadas e inquestionáveis. os professores precisam - há que pôr coisas em ordem ou simplesmente fazer mesmo uma pausa para se continuar bem o trabalho. e estes ritmos das escolas são acompanhados pela sociedade (e não contrariados ou tolerados cinicamente): as pessoas aproveitam e tiram férias (fogem para o sol!)ou há toda uma série de coisas organizadas - extra escola, evidentemente - para essas férias como estágios e actividades várias para as crianças. a questão passa pelo modo como é encarada a escola e não apenas os professores; posso ainda acrescentar que a ministra da educação tentou pôr mais 2 horas no horário dos professores (passando de 20 para 22 horas) com o pretexto de reduzir despesas (a crise!). a contestação foi imediata e geral e a ministra calmamente retirou a medida reconhecendo sem dramas que a redução de despesas podia ser feita de outra forma! e pronto, que mais hei-de dizer?

António Duarte disse...

Tudo muito bem, excepto um pequeno pormenor: nesses países que concedem, preto no branco, mais do que um mês de férias aos professores, também não lhes pagam 14 ordenados anuais como nós recebemos.

Por isso, antes de exigir certas coisas, convém ver primeiro onde é que essas exigências nos podem levar...

tourais disse...

Duarte,

Não são 14 ordenados. São 12 ordenados e dois meses de subsídios. É uma enorme diferença. Em subsídios e ajudas de custo, há profissões e cargos que produzem menos e recebem muito mais.

al disse...

Alexandra, obrigada pelo teu testemunho. É importante que as pessoas saibam que a sua vida, as suas condições de trabalho, podem - devem melhorar. E já que copiamos tanto lixo do RU, dos EU, por que não copiar o que é reconhecidamente melhor do que aquilo que temos?


A. Duarte, é verdade, não recebem 14 meses de ordenado em todos esses países..

Mas sabe que o ordenado deles mais do que triplica o de um professor português em fim de carreira?

E aquilo que pedimos não é nada de extraordinário: já tivemos uma semana de férias em Novembro, as escolas já começaram a 7 de Outubro, no Natal só se voltava à escola depois dos Reis ..

Margarida Alegria disse...

Estás coberta de razão, Al! Óptimo texto!
Grão a grão, tudo nos vão tirando,sem qualquer proveito educativo e em medidas contra-producentes, bastando um comentador ignorante da nossa praça "espirrar" contra o pretenso excesso de férias dos professores.
Vivemos a vogar ao sabor das ondas da chamada "opinião Pública"(Com. social manipulada) o que é sempre benvindo para os governantes que confundem política de Educação com contas de merceeiro, para poupar uns tostões de forma ineficiente e subsequentemente os esbanjar com os projectos eduqueses ou afins.
Também na Irlanda há mais que um mês de férias de Verão, só para dar mais um exemplo.

julio disse...

... as férias do primeiro período não podem regressar porque os pais (e a CONFAP) não querem e, por isso, o governo não pode querer

Anónimo disse...

Eu acho que aos professores só seria feita justiça quando lhes fosse permitido trabalhar quando, e como quizessem. Uns trabalhariam (ou deslocar-se-iam à escola), três vezes por semana, outros duas, outros uma, e ainda haveria quem lá nunca pusesse os pés. E mesmo depois de dois meses a trabalhar dois ou três dias por semana, nada como uma semana ou duas de férias para descansar do stress.

O vosso problema é que a maior parte de vós nunca fez mais nada na vida. Deixaram de estudar e foram logo professores. Sabem lá vocês o que é trabalho...